Archive for the Viver para contar Category

O dia em que a quase-morte tocou o repórter

Posted in Viver para contar on Abril 17, 2008 by Paulo Nuno Vicente

por Jorge António Barros, jornalista n’ O Globo

Chegar ao traficante Sérgio Bolado Ferreira da Silva, em seu quartel-general na Rua Dois, na Rocinha, foi muito mais difícil do que se poderia imaginar ao diante do seu corpo espremido no caixão, numa capela do Cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul do Rio, quatro meses depois de tê-lo visto vivo. Ele próprio admitiu, na entrevista exclusiva de uma página inteira no Jornal do Brasil, que passara bom tempo em cima de uma árvore, escondido, observando a dupla de jornalistas que o procurava, até decidir se falaria ou não com eles. E ainda não foi naquela noite.

Fui o primeiro repórter brasileiro a morar numa favela para fazer uma reportagem. Quando pensei a matéria, não tive medo, apesar de o tráfico e o jogo de bicho – outra máfia brasileira – estarem numa guerra sem fim. Eles nunca haviam se estranhado até que surgiu uma rusga provavelmente por causa de um telefone do bicho, que era usado pelos traficantes. A partir daí, os traficantes passaram a exigir que os bicheiros doassem um caminhão com alimentos para a comunidade. Durante minha trajetória profissional poucas vezes tive tanto medo como no dia em que quase morri na Rocinha.

Só pude ver Bolado frente a frente, pela primeira vez, após uma saraivada de tiros disparados por seu grupo, contra o carro da reportagem do Jornal do Brasil, no qual viajávamos eu, o fotógrafo Alcyr Cavalcanti o motorista Osmar Sombra Bastos, no fim de janeiro deste ano. Então repórter do JB, tremi da cabeça aos pés, principalmente depois de ver o buraco de bala na traseira do Gol branco, com o logotipo do jornal. A surpresa maior veio em seguida: através de um olheiro da boca de fumo, o Brucutu, Bolado fez questão de chamar os jornalistas para pedir desculpas. Ele e seu grupo haviam confundido o carro da reportagem com o dos bicheiros, com os quais travavam uma guerra.

Sem camisa, armado de sua inseparável Uzi israelense, Bolado não escondeu o nervosismo ao ver que seus garotos tinham acabado de balear o carro errado. O carro de reportagem de um dos mais influentes jornais do país. Cercado pelos meninos da Rocinha – ao melhor estilo de Os Intocáveis – o traficante da maior favela da América Latina poderia se dar ao luxo de dispensar a imprensa. Mas preferiu pedir desculpas, como quem esbarra no outro ou pisa no pé de alguém, num ônibus lotado. O erro dos traficantes poderia ter custado a vida dos três funcionários do JB.

O episódio do perdão serve justamente para mostrar à sociedade urbanizada o lado oculto de um tipo de bandido visto sempre como implacável, com um AR-15 na mão. Temido e respeitado – também pela imposição das armas e de um pequeno exército de olheiros e traficantes – Bolado revelou contraditoriamente um espírito pacifista, de quem queria apenas seguir um rumo reservado, segundo ele, pelo destino. Para Bolado, o ideal é que se evitasse confrontos armados com a polícia e que os moradores da Rocinha tivessem direito à segurança e à tranqüilidade, apesar de não poderem pagar por isso. Cada um tem seu papel a cumprir, pensava o bandido. O dele era o de traficar drogas.

Nascido no Hospital Miguel Couto, o mais próximo da Rocinha, na Gávea, no dia 15 de março de 1965, Sérgio Bolado era o terceiro entre seis filhos de um casal de migrantes que vive na favela há pelo menos quatro décadas. Ele não concluiu o primeiro grau, mas revelava extraordinária capacidade de organizar as idéias, num discurso ágil e atraente, próprio dos bandidos que se tornam mitos também em virtude dos limites extremos em que vivem. No caso de Bolado, ele próprio se comparou até o presidente José Sarney, ao me responder como assumiu o poder criminoso na Rocinha. Obra do destino.

Corpo atlético e aparência de garotão da Zona Sul, Bolado só se diferenciava deles pela cor pálida (“Eu sou branquinho. Não posso nem ir ali na praia”). Até grifes como Cantão ele usava em bermudas e camisetas de bom gosto. Dizia não fazer questão de dinheiro, mas apreciava o conforto de uma casa de alvenaria na favela, numa época em que isso ainda era um luxo, com vídeo-cassete e tudo. Aliás, lia também quase todos os jornais, principalmente O Dia.

Pupilo do traficante Dênis, Bolado era fiel e enfrentou com vigor o jogo de bicho comandado por Luís Carlos Batista, na Rocinha, desde que a contravenção se negou a colaborar com a alimentação da comunidade, como faziam os traficantes. Bolado comprou a briga, a ponto de se tornar uma terrível ameaça para toda a contravenção do Rio, cuja cúpula pretendia resolver o conflito com a morte do traficante. Bolado, portanto, seria um cadáver perfeito para o bicho, além de belo troféu para a Polícia. Mas só conseguiu mesmo escapar desta última possibilidade. Ao contrário do destino de outros grandes traficantes de sua época, Bolado não foi preso. Foi fuzilado, num entrevero no alto do morro. O assassino teria sido um bandido conhecido como Lacraia, que integrara a quadrilha de traficantes da Rocinha. Lacraia nunca foi encontrado, morto ou vivo.

A morte de Bolado virou apenas mais uma página no comando do tráfico da maior favela da América Latina. Em seu lugar, assumiu o comando o traficante Naldo, a quem eu conhecera na fatídica semana em que tentava entrevistar Bolado. Naldo era moreno claro, boa pinta. Ganhou fama no Rio com sua foto nos jornais, de agasalho com capuz, disparando um fuzil automático no alto de uma laje na favela. A fotografia percorreu o mundo e atraiu a atenção das autoridades. Logo depois da publicação dessa foto, o tráfico de drogas na Rocinha sofreria um de seus maiores ataques. Incomodado com uma matéria publicada na Veja, que relatava como o tráfico controlava uma favela como a Rocinha, o governador Moreira Franco determinou que a polícia invadisse o local. Os policiais fizeram questão de ocupar a Rua Dois, onde funcionava o quartel-general do tráfico de drogas.

Eu havia conhecido a Rua Dois meses antes. Era o local mais temido da Rocinha por sediar o comando do tráfico, na época de Bolado. Era uma rua bem esquisita mesmo. Sinistra. Os moradores pareciam viver uma vida normal, mas desconfiavam logo de qualquer estranho que se aproximasse dali. Eu cheguei lá com o fotógrafo Alcyr Cavalcanti. Vestíamos short e camiseta. Já estava bem integrado ao morro. Entramos sozinhos não foi por coragem, não. Foi por absoluta falta de opção. Nenhum de nossos conhecidos na associação de moradores se dispôs a nos acompanhar até a Rua Dois. Era o gueto do gueto. Um local onde só entrava morador ou amigo de morador. Como na barreira de um bunker, os carros só conseguiam passar se piscassem os faróis duas vezes. Era o código imposto pelo tráfico, para se prevenir de um eventual ataque policial ou inimigo. Sem ajuda de ninguém fomos chegando devagar. A Rua Dois é uma transversal da Estrada da Gávea, que corta a favela, de um lado a outro. A Estrada da Gávea, em geral, é o endereço dado pelo morador da Rocinha quando precisa se candidatar a um emprego ou mesmo abrir crediário em alguma loja. Qual o endereço? Estrada da Gávea, número tal, São Conrado. Endereço limpo. Uma ótima referência para a entrega de um móvel ou eletrodoméstico comprado pelo morador. Ainda na década de 80, Rocinha era nome de favela. Mais tarde, o prefeito Marcello Alencar transformou a Rocinha em bairro, mas o nome não pegou. Só que a favela cresceu tanto e passou a ser ocupada por uma classe média baixa em ascensão. Isso elevou o status de quem mora lá. Para o morador de favela, morar na Rocinha é como quem vive em cobertura de frente para o mar, em relação ao morador de classe média, no asfalto. Rocinha é favela-cidade, a beira-mar plantada.

Quem passa pela auto-estrada Lagoa-Barra, que alcança o Túnel Dois Irmãos, mesmo em velocidade, não se cansa de olhar as luzes da favela, à noite. Um mar de luzes se espalhando pela encosta do Morro Dois Irmãos. Apesar de cercada pela prefeitura, a Rocinha é uma das favelas que mais cresce até verticalmente no Rio.

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As cigarras de Kim Jong-il

Posted in Viver para contar on Abril 12, 2008 by Paulo Nuno Vicente

A rubrica Viver para Contar publica um novo relato exclusivo: Rita Colaço, jornalista da Antena 1, traz a público os sentidos, as reflexões, as dúvidas que tantas vezes o tempo escasso da rádio remete ao silêncio dos blocos de notas.

Em 2006, esteve em reportagem na Coreia do Norte. Esteve depois em Seul, o lado sul da fronteira que divide a península. Coreia do Norte: um Segredo de Estado recebeu da AMI uma menção honrosa Jornalismo Contra a Indiferença.

“Nas ruas de Pyongyang não se puxam gatilhos. Os olhares são mais mortíferos. De modo que o perigo está na retórica. Afinal, haverá perigo maior?”

Contributo para reflectir e partilhar.

A Rádio tem medo da palavra

Posted in Viver para contar on Abril 3, 2008 by Paulo Nuno Vicente

Imperdível também esta entrevista ao meu companheiro José Manuel Rosendo: directa, sincera, rara.

Notas soltas sobre o Jornalismo no Iraque

Posted in Viver para contar on Março 27, 2008 by Paulo Nuno Vicente

Bruxelas, 2008-03-27

Paulo Casaca

Por trás da minha secretária acumulam-se os livros sobre o Iraque, a maioria dos quais – e os melhores – escritos por repórteres de guerra, antes da operação militar de 2003 ou apenas num breve período depois disso.

São relatos que nem sempre podem ser classificados de objectivos – e a discussão sobre o que é a objectividade levar-nos-ia para longe do objectivo destas notas – mas que nos dão um testemunho vivido e insubstituível da realidade.

Numa guerra, costuma-se dizer que a primeira vítima é a verdade, mas na presente guerra do Iraque é justo dizê-lo que a principal vítima foi mesmo a do portador da verdade, ou seja, o jornalista.

Nunca numa guerra foram mortos tantos jornalistas como nesta, nunca tantos pereceram vítimas do cumprimento do seu dever, e nunca se assistiu a uma política que tinha como objectivo deliberado a eliminação dos jornalistas.

Há muitas contas a saldar no Iraque, mas uma das mais importantes é sem dúvida a que temos com esta comunidade da imprensa que deu tanto de si para que alguma coisa daquela tragédia pudesse ser conhecido.

Na última vez que estive no Iraque e quando assisti a uma conferência com milhares de iraquianos na cidade de Ashraf (centro da OMPI – Organização dos Mujahedines do Povo do Irão – que, sob protecção militar norte-americana, tem funcionado como a verdadeira zona verde dos iraquianos, ou seja, a única zona onde eles podem pacificamente encontrar-se), verifiquei que os principais organismos da imprensa internacional estavam representados por iraquianos.

Se se tratasse de uma decisão editorial, o facto só seria de assinalar pela positiva, mas realmente não era esse o caso: tratava-se apenas de assegurar fontes mais ou menos técnicas de imagem ou de som a ser tratados, por outrem, fora do Iraque; o jornalismo internacional independente (ou seja, não integrado em nenhuma força beligerante), pura e simplesmente, tinha desaparecido.

Mas o jornalismo independente continuava, com cada vez maiores dificuldades e restrições. Sameerah al-Shibli – o meu primeiro e principal contacto no Iraque – estava ainda presente, em Fevereiro do ano passado, em Al Khalis, cidade sediada nas imediações de Ashraf e que se tornaria num dos principais centros de intervenção das brigadas Quods dos Guardas Revolucionários Iranianos.

Foi por essa altura que, já depois de ter perdido grande parte da família num massacre organizado na cidade vizinha de Al-Mughdadia (ao que se pensa, pelo responsável do exército iraquiano na Província), a Sameerah fez a reportagem de uma operação militar do exército iraquiano na aldeia vizinha de Al-Khalis, Abo-Tamor, onde um seu primo direito de doze anos foi enfiado num buraco e assassinado com um tiro na nuca.

Foi uma reportagem em que me baseei para apresentar uma queixa formal ao relator para as execuções extrajudiciais das Nações Unidas e que, tanto quanto me consta, terá sido tida em conta para remover o general iraquiano responsável (que substituiu o anterior, mas que tinha a mesma filiação política numa das organizações próximas do regime de Teerão).

Pouco depois, Sameerah viu o seu motorista barbaramente assassinado, depois de torturado, tendo presumido que o objectivo da tortura tinha sido o de conhecer os locais por onde ela passava a fim de organizar a sua eliminação, e teve que fugir, tendo eu conseguido organizar a sua fuga com a preciosa ajuda de Susanne Fischer e da Delegação de Suleymania do Instituto para o Jornalismo da Guerra e Paz.

Sameerah al-Shibli, por ora, está no Cairo, mantendo uma rede mais ou menos clandestina de repórteres, com os quais edita um jornal, o Iqraa – agora apenas electrónico, www.Iqraapress.com – que substitui aquele de que era editora.

Ainda há pouco tempo, quando acusou o chefe da polícia na província de Dyiala de ter organizado, em colaboração com a Al Qaeda, um atentado contra o líder do Partido Islâmico em Bakuba – atentado que provocou várias vítimas, entre militares norte-americanos e líderes iraquianos – recebeu ameaças de morte telefónicas, para si e para os seus.

Enfim, detalhes das histórias que ela tenciona publicar, assim que conseguir proteger o que resta da sua família, que se encontra escondida longe da sua cidade natal, mas ainda no Iraque, por não ter conseguido fugir para nenhum outro sítio.

Em Junho passado, Sahar al-Haideri – uma das mais importantes colaboradoras do Instituto – foi também assassinada, juntando-se assim a uma interminável lista dos mártires da imprensa.

A meu convite, Susanne Fischer deverá deslocar-se-á no próximo dia 6 de Maio ao Parlamento Europeu, para nos falar um pouco do seu trabalho e da realidade do jornalismo no Iraque, e essa será talvez uma oportunidade para continuar estas notas.

Viver para contar: primeiro contributo

Posted in Viver para contar on Março 27, 2008 by Paulo Nuno Vicente

Como estarão lembrados os leitores deste weblog, lancei um desafio no início deste mês de Março: convidei repórteres da rádio, da televisão, da imprensa escrita e online, fotojornalistas e repórteres de imagem, portugueses e estrangeiros; todos convidados para publicarem aqui um relato pessoal, uma crónica, uma reportagem, um vídeo, uma fotografia, um recorte literário, um ensaio, uma estória não contada, um pedaço capaz de inspirar a reflexão sobre a segurança dos jornalistas.

O mesmo desafio foi igualmente lançado a várias pessoas que convivem com os repórteres no terreno e que, não sendo jornalistas, de uma maneira ou de outra, reflectem regularmente sobre o tema.

O espaço Viver para Contar é agora inaugurado com a publicação de um artigo escrito precisamente por um… não-jornalista! Assina o contributo inaugural desta rubrica o eurodeputado socialista Paulo Casaca com algumas Notas soltas sobre o Jornalismo no Iraque.

Gostava de deixar claro que são aceites contributos provenientes de todo e qualquer quadrante político, cívico e religioso e que as opiniões doravante publicadas, não correspondendo necessariamente à perspectiva do editor deste weblog, reflectem o ponto de vista de quem as assina.

E aproveito para relembrar: aceitam-se contributos!

Ndjamena, Campo Europa: visita nocturna

Posted in Viver para contar on Março 23, 2008 by Paulo Nuno Vicente

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Têm uma predilecção por desertos: estão no Iraque, na Afeganistão e, descobri ontem à noite, estão também no Chade. As aranhas-camelo não são venenosas mas a mordedura, consta, é bastante dolorosa. Esta surpreendeu-me a noite passada, no Campo Europa, o aquartelamento da EUFOR no Chade.

Chade e a liberdade de imprensa

Posted in Viver para contar on Março 22, 2008 by Paulo Nuno Vicente

O que é a liberdade de imprensa?

No Chade é ser impedido pelas autoridades militares de – mesmo com acreditação de livre-trânsito da ONU! – seguir com as Nações Unidas para a fronteira com o Darfur e ter de enviar, à socapa, um gravador com um membro da delegação..