O dia em que a quase-morte tocou o repórter

por Jorge António Barros, jornalista n’ O Globo

Chegar ao traficante Sérgio Bolado Ferreira da Silva, em seu quartel-general na Rua Dois, na Rocinha, foi muito mais difícil do que se poderia imaginar ao diante do seu corpo espremido no caixão, numa capela do Cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul do Rio, quatro meses depois de tê-lo visto vivo. Ele próprio admitiu, na entrevista exclusiva de uma página inteira no Jornal do Brasil, que passara bom tempo em cima de uma árvore, escondido, observando a dupla de jornalistas que o procurava, até decidir se falaria ou não com eles. E ainda não foi naquela noite.

Fui o primeiro repórter brasileiro a morar numa favela para fazer uma reportagem. Quando pensei a matéria, não tive medo, apesar de o tráfico e o jogo de bicho – outra máfia brasileira – estarem numa guerra sem fim. Eles nunca haviam se estranhado até que surgiu uma rusga provavelmente por causa de um telefone do bicho, que era usado pelos traficantes. A partir daí, os traficantes passaram a exigir que os bicheiros doassem um caminhão com alimentos para a comunidade. Durante minha trajetória profissional poucas vezes tive tanto medo como no dia em que quase morri na Rocinha.

Só pude ver Bolado frente a frente, pela primeira vez, após uma saraivada de tiros disparados por seu grupo, contra o carro da reportagem do Jornal do Brasil, no qual viajávamos eu, o fotógrafo Alcyr Cavalcanti o motorista Osmar Sombra Bastos, no fim de janeiro deste ano. Então repórter do JB, tremi da cabeça aos pés, principalmente depois de ver o buraco de bala na traseira do Gol branco, com o logotipo do jornal. A surpresa maior veio em seguida: através de um olheiro da boca de fumo, o Brucutu, Bolado fez questão de chamar os jornalistas para pedir desculpas. Ele e seu grupo haviam confundido o carro da reportagem com o dos bicheiros, com os quais travavam uma guerra.

Sem camisa, armado de sua inseparável Uzi israelense, Bolado não escondeu o nervosismo ao ver que seus garotos tinham acabado de balear o carro errado. O carro de reportagem de um dos mais influentes jornais do país. Cercado pelos meninos da Rocinha – ao melhor estilo de Os Intocáveis – o traficante da maior favela da América Latina poderia se dar ao luxo de dispensar a imprensa. Mas preferiu pedir desculpas, como quem esbarra no outro ou pisa no pé de alguém, num ônibus lotado. O erro dos traficantes poderia ter custado a vida dos três funcionários do JB.

O episódio do perdão serve justamente para mostrar à sociedade urbanizada o lado oculto de um tipo de bandido visto sempre como implacável, com um AR-15 na mão. Temido e respeitado – também pela imposição das armas e de um pequeno exército de olheiros e traficantes – Bolado revelou contraditoriamente um espírito pacifista, de quem queria apenas seguir um rumo reservado, segundo ele, pelo destino. Para Bolado, o ideal é que se evitasse confrontos armados com a polícia e que os moradores da Rocinha tivessem direito à segurança e à tranqüilidade, apesar de não poderem pagar por isso. Cada um tem seu papel a cumprir, pensava o bandido. O dele era o de traficar drogas.

Nascido no Hospital Miguel Couto, o mais próximo da Rocinha, na Gávea, no dia 15 de março de 1965, Sérgio Bolado era o terceiro entre seis filhos de um casal de migrantes que vive na favela há pelo menos quatro décadas. Ele não concluiu o primeiro grau, mas revelava extraordinária capacidade de organizar as idéias, num discurso ágil e atraente, próprio dos bandidos que se tornam mitos também em virtude dos limites extremos em que vivem. No caso de Bolado, ele próprio se comparou até o presidente José Sarney, ao me responder como assumiu o poder criminoso na Rocinha. Obra do destino.

Corpo atlético e aparência de garotão da Zona Sul, Bolado só se diferenciava deles pela cor pálida (“Eu sou branquinho. Não posso nem ir ali na praia”). Até grifes como Cantão ele usava em bermudas e camisetas de bom gosto. Dizia não fazer questão de dinheiro, mas apreciava o conforto de uma casa de alvenaria na favela, numa época em que isso ainda era um luxo, com vídeo-cassete e tudo. Aliás, lia também quase todos os jornais, principalmente O Dia.

Pupilo do traficante Dênis, Bolado era fiel e enfrentou com vigor o jogo de bicho comandado por Luís Carlos Batista, na Rocinha, desde que a contravenção se negou a colaborar com a alimentação da comunidade, como faziam os traficantes. Bolado comprou a briga, a ponto de se tornar uma terrível ameaça para toda a contravenção do Rio, cuja cúpula pretendia resolver o conflito com a morte do traficante. Bolado, portanto, seria um cadáver perfeito para o bicho, além de belo troféu para a Polícia. Mas só conseguiu mesmo escapar desta última possibilidade. Ao contrário do destino de outros grandes traficantes de sua época, Bolado não foi preso. Foi fuzilado, num entrevero no alto do morro. O assassino teria sido um bandido conhecido como Lacraia, que integrara a quadrilha de traficantes da Rocinha. Lacraia nunca foi encontrado, morto ou vivo.

A morte de Bolado virou apenas mais uma página no comando do tráfico da maior favela da América Latina. Em seu lugar, assumiu o comando o traficante Naldo, a quem eu conhecera na fatídica semana em que tentava entrevistar Bolado. Naldo era moreno claro, boa pinta. Ganhou fama no Rio com sua foto nos jornais, de agasalho com capuz, disparando um fuzil automático no alto de uma laje na favela. A fotografia percorreu o mundo e atraiu a atenção das autoridades. Logo depois da publicação dessa foto, o tráfico de drogas na Rocinha sofreria um de seus maiores ataques. Incomodado com uma matéria publicada na Veja, que relatava como o tráfico controlava uma favela como a Rocinha, o governador Moreira Franco determinou que a polícia invadisse o local. Os policiais fizeram questão de ocupar a Rua Dois, onde funcionava o quartel-general do tráfico de drogas.

Eu havia conhecido a Rua Dois meses antes. Era o local mais temido da Rocinha por sediar o comando do tráfico, na época de Bolado. Era uma rua bem esquisita mesmo. Sinistra. Os moradores pareciam viver uma vida normal, mas desconfiavam logo de qualquer estranho que se aproximasse dali. Eu cheguei lá com o fotógrafo Alcyr Cavalcanti. Vestíamos short e camiseta. Já estava bem integrado ao morro. Entramos sozinhos não foi por coragem, não. Foi por absoluta falta de opção. Nenhum de nossos conhecidos na associação de moradores se dispôs a nos acompanhar até a Rua Dois. Era o gueto do gueto. Um local onde só entrava morador ou amigo de morador. Como na barreira de um bunker, os carros só conseguiam passar se piscassem os faróis duas vezes. Era o código imposto pelo tráfico, para se prevenir de um eventual ataque policial ou inimigo. Sem ajuda de ninguém fomos chegando devagar. A Rua Dois é uma transversal da Estrada da Gávea, que corta a favela, de um lado a outro. A Estrada da Gávea, em geral, é o endereço dado pelo morador da Rocinha quando precisa se candidatar a um emprego ou mesmo abrir crediário em alguma loja. Qual o endereço? Estrada da Gávea, número tal, São Conrado. Endereço limpo. Uma ótima referência para a entrega de um móvel ou eletrodoméstico comprado pelo morador. Ainda na década de 80, Rocinha era nome de favela. Mais tarde, o prefeito Marcello Alencar transformou a Rocinha em bairro, mas o nome não pegou. Só que a favela cresceu tanto e passou a ser ocupada por uma classe média baixa em ascensão. Isso elevou o status de quem mora lá. Para o morador de favela, morar na Rocinha é como quem vive em cobertura de frente para o mar, em relação ao morador de classe média, no asfalto. Rocinha é favela-cidade, a beira-mar plantada.

Quem passa pela auto-estrada Lagoa-Barra, que alcança o Túnel Dois Irmãos, mesmo em velocidade, não se cansa de olhar as luzes da favela, à noite. Um mar de luzes se espalhando pela encosta do Morro Dois Irmãos. Apesar de cercada pela prefeitura, a Rocinha é uma das favelas que mais cresce até verticalmente no Rio.

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Uma resposta to “O dia em que a quase-morte tocou o repórter”

  1. Parabéns ao colega Jorge, pelo relato feito aqui. Em 1987, durante a guerra no morro Dona Marta, em Botafogo, na zona Sul do Rio, permaneci lá durante uma semana.
    Num tempo sem celulares e tantas outras facilidades, entrava no ar, ao vivo, com walkie-talkie em VHF, na programação ao vivo do Sistema Globo de Rádio. Instalamos uma repetidora no Mirante Dona Marta e, dali, o aúdio era transmitido até o Sumaré e de lá para a Rua do Russel, na Glória.
    As quadrilhas de Zaca e Cabeludo levaram terror aos moradores.
    Em abril de 1990, 18 anos atrás, iniciei uma reportagem sobre o narcotráfico na fronteira do Brasil com a Bolívia, ao retornar ao meu estado natal, chamado pela família, que tem emissoras de rádio.
    Ameaças de morte, invasões de estúdio etc. Até que, num fatídico dia, tive que me defender, e à minha mulher, pois não tenho pretensão de virar nome de rua tão cedo.
    O preço pago, por ter feito a minha legítima defesa – não considerada no Tribunal – foi muito caro. Ainda é!
    Alguns detalhes estão na página, ainda não terminada, na internet, em http://aaanache.googlepages.com/home, com a reprodução das edições do “Globo” e “The Wall Street Journal”, que noticiaram tudo sobre a campanha contra as drogas (começou como reportagem e transformou-se em campanha, com o apoio do povo).
    Caso queira, será um privilégio manter contato com o premiado colega do “Globo”. Ainda me considero “da casa”.
    Abraços firmes e fortes do Pantanal Sul.
    Armando Anache – Jornalista e Radialista

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